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sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Este libanês salva o coração de crianças refugiadas sírias - PÚBLICO

BY Agro Mecânica Tatuí IN No comments



Com o seu minúsculo peito aberto, Amena, de nove meses, espera por uma cirurgia de alto risco. Faz parte do pequeno grupo de refugiados sírios que Issam al-Rassi, um cardiologista libanês, salva semanalmente, apesar da escassez de fundos para as cirurgias.
“Já vi bebés morrer enquanto os pais procuravam ajuda”, conta Rassi, um dos cardiologistas mais proeminentes no Líbano, num testemunho emocionado.
Apesar do seu horário atarefado no hospital de Beirute, o médico passa um dia por semana a operar crianças refugiadas, da Síria ou Palestina, no hospital Hammund, no Sul do Líbano.
Já recusou o pagamento várias vezes, noutras tentou reduzir os custos da cirurgia para os pais das crianças com menos dinheiro, famílais abandonaram os seus países por causa da guerra.
“Faz parte do nosso trabalho, não é nosso trabalho. Se existe um bebé que deve ser operado, tem de ser operado”, afirma.
Hoje, o médico trata de Amena al-Helou, que nasceu com o coração com um só ventrículo. À volta do seu pequeno corpo coberto em roupa verde, a equipa médica tenta corrigir a malformação. O silêncio na sala de cirurgia só é interrompido pelo som da máquina que monitoriza os sinais vitais da criança. “Funcionou”, diz o cirurgião.
A coisa mais preciosa
Lá fora, na sala de espera, os pais de Amena, Khalil e Amira, esperam ansiosamente pelo resultado da intervenção na mais nova das suas seis crianças. São sírios e refugiados no Líbano desde 2013, e Khali, 39 anos, alimenta a sua família através do seu trabalho sazonal na agricultura. A família teve de fazer um empréstimo para pagar o procedimento.
O hospital Hammoud oferece aos refugiados uma redução na tarifa das cirurgias e as Nações Unidas reembolsam 75% dos custos, mas as famílias ainda têm de encontrar forma de pagar os 1800 euros, uma soma enorme comparativamente ao seu rendimento.
“Pedi dinheiro a diferentes pessoas, ao meu irmão, ao meu primo e a outros familiares”, diz Khalil. “O difícil será reembolsar, não sei o que vamos fazer”, acrescenta. “Estamos ansiosos, claro, mas não existe outra opção. É a coisa mais preciosa que temos”, diz.
Khalil conta que pediu ajuda a várias instituições de solidariedade libanesas, mas elas responderam que “não ajudam sírios”.
Mais de um milhão de sírios fugiu para o Líbano desde que a guerra começou, na sequência da revolta de 2011. Com quatro milhões de habitantes, o Líbano não consegue responder ao influxo de refugiados. As Nações Unidas dizem que faltam fundos para apoiar financeiramente estas cirurgias. O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados lançou um apelo para angariar 121 milhões de euros para cobrir as despesas hospitalares dos refugiados no Líbano, mas até agora só recebeu 32 milhões de euros.
Racionar assistência
“O facto de só termos conseguido angariar 30% dos fundos que precisamos para salvar vidas é terrível”, lamenta Michael Woodman, médico e membro das Nações Unidas. Para já, organização conseguiu cobrir 50% das despesas de saúde de refugiados sírios no Líbano durante 2016, acrescentou.
“É uma tragédia, ninguém quer estar na posição de racionar assistência”, diz Woodman.
Estas situações deixam louco o médico Rassi louco. “Não podemos pedir a um pai a viver numa tenda para pagar 2,7 mil euros por uma cirurgia, é uma enorme quantia”, avalia, lembrando que esse valor é o equivalente a três salários de um libanês de classe média. Os refugiados sírios recebem menos.
Depois do sucesso da cirurgia de Amena, o médico avança para Ali, uma criança de 18 meses, com dificuldades em respirar. Também nasceu com um só ventrículo e teve de esperar três meses por uma cirurgia, o que fez com que desenvolvesse uma infecção pulmonar.
“A cirurgia demorou porque tivemos de recolher o dinheiro necessário”, explicou o seu pai Ahmed Hassoun, de 29 anos e natural da província de Idleb, no Norte da Síria.